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Vê lá, mulher, fico didê assim fácil não! Ou o boy mexe muito comigo, raros, e aí, só de me pegar de jeito, na hora já dá aquela umidificada goxtosa, a calcinha apertando horrores, mamãe elefanta querendo levantar a tromba (e nem precisa ser bonito, necudo, nada, mas, se for, a gente é educada, agradece) ou, então, o remédio é chamar logo o pramil e deixar a natureza fazer sua arte. Cona cê acha que vai bancar a compreensiva? Brincou! Se tombar e cê não tiver na bolsa, pode apostar que elas, sim, têm. Mais fácil o azulzim que guanto, bem mais aliás, aí um azulzim puxa o outro e mais outro, sem contar um outro que é também igualzinho azul, sabe qual. Esse podia chamar trucada, isso sim, porque eu tou é lôca de confiar nele! O bichinho do ram-ram mesmo que fique em casa, os abiguinhos saem todos pra passear e a gata, ó, sifu gostoso. Não vou fingir que sou santa e não dou às vezes minha escapulida, ainda mais quéti no vício, quem nunca?, mas bastou uma bezezinha e já me convenci a não deixar tanto na mão de Deus. Pra quem tem industrial, au!, aí a agulhada do doce tem que ser no braço, mona. Uó. Pra mim, foi uma vez só. Necrose é babado, ali nem perlutan pode. Eu queria a morte! E se antes do trucada já tinha, agora só aumentou o número dessas que são alérgicas a juízo e guanto, as entusiastas do pele na pele, o método mais tradicional desde Adão e Eva pras letrinhas todas do abecedário ganharem esse mundão de Deus. Com destaque especial pra aquelas quatro que não saem nunca de moda. Entra década, sai década e elas ainda têm joelho pra subir e descer na boquinha da garrafa: A de Amor, I de Ilusão, D de didê, S de Se joga. Bicha, as deusas falam que senza é o natural, que o contrário disso é igual chupar bala com papel, e vai convencer do contrário. Pelo menos não são hipócritas. Eu divido quarto com uma que, mulher, só usa quando o cliente lembra de pedir e, ops!, eles são tão esquecidos. O resultado é a caixa de guanto que ela pegou no postinho cinque anni prima vencida e eu desesperada vendo que tinha ali ainda mais da metade. Dia após dia na batalha, às vezes mais, às vezes menos, mas põe aí, chutando baixo, uns três clientes por dia (e aqui não tem nem feriado e fim de semana, não, fica sem dá o da fada madrinha pra ver o sinsalabim que a varinha dela não faz), então, três vezes trezentos e sessenta e cinco, é isso o ano, né, bicha? Bicha, me ajuda aqui, que pra conta de cabeça eu sou lesada. Três vezes trezentos, novecentos, três vezes sessenta, cento e oitenta, aí quinze, novecentos mais duzentos, tá, bicha, menos cinco, mil e noventa e cinco pegês num ano, quase cinco mil e quinhentos nesses cinco e, até hoje, ela usou só cinquenta daquela caixa toda. Tou em choque, mona, incrédula! É uma dessas que cê tá aí vendo e cê não vai acertar qual nunca. Já eu, só de olhar, já cato a bicha que ama um no pelo… e, não bastasse esse sexto sentido aguçado, as conas também te entregam horrores. Toma cuidado com o que cê faz ali com elas, elas são uó. É o que eu digo.

créditos da foto: Cintia Antunes

Amara Moira é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária (com tese sobre indeterminações do sentido no Ulysses, de James Joyce) e autora do livro autobiográfico E se eu fosse puta (hoo editora, 2016). 

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