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Em fevereiro de 2004, os físicos Donald W. Olson e Russell L. Doescher e a professora de inglês Marilynn S. Olson sugeriram que as cores de fundo do quadro O grito, de Edvard Munch, foram influenciadas pelas alterações climáticas planetárias provocadas pela grande erupção do vulcão Krakatoa em 27 de agosto de 1883, na Indonésia. O horizonte de fogo do quadro de Munch, em que o céu parece estar sendo lambido por labaredas vermelho-alaranjadas, poderia muito bem corresponder aos relatos da época das auroras e dos crepúsculos afetados pelas cinzas do Krakatoa, inclusive na Noruega, distante cerca de 11 mil quilômetros da Indonésia. No entanto, se a hipótese procede, a pintura não foi realizada no calor da hora, mas dez anos depois, em 1893. Esse dado não passou despercebido pelos cientistas, que lançaram mão de passagens do diário e de outros escritos do artista a fim de demonstrar que os primeiros esboços para a obra datam de por volta de 1884, 1885. Poderiam ter lembrado, a propósito, a anotação de 1890 em que Munch diz: “Eu não pinto o que vejo — mas o que vi”. Uma década depois do ocorrido, as cores sanguíneas do céu voltam à superfície pictórica não como fato, mas como sensação, não como realidade, mas como visão, fantasma, assombração.

Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1888

“Notícias várias”, Jornal do Commercio

            A mais assombrosa das erupções vulcânicas foi a de Krakatoa, que lançou lavas até altura de 20 quilômetros, determinando provavelmente o imenso luzeiro que por muitos dias foi observado do Rio de Janeiro e de todos os pontos do globo, circundando o Sol no ocaso.

22 de setembro de 1885

Camillo Flamarion,“Perturbações da atmosfera e do oceano”, Publicador Maranhense

            A atmosfera era de cinza e fumo.

            Todos julgaram ser chegada a hora derradeira.

            Todos os seres vivos que habitavam perto das costas foram engolidos pelas ondas.

            Ainda passado muito tempo depois, os navios encontravam boiando sobre as águas numerosos grupos de cadáveres entrelaçados e abrindo os grandes peixes encontravam dentro deles dedos e unhas e pedaços de crânios vestidos de cabelos.

            Num caderno de 1908, Munch anotou: “De noite, sonhei que havia beijado um cadáver e me levantava com medo — os lábios pálidos e sorridentes de um cadáver eu beijei — um beijo frio e úmido — Era o rosto de Fru L.”.

            Em 2019, quando abrigou uma retrospectiva de Munch, o British Museum lançou outra provocação a respeito de O grito: não seria a representação de um homem gritando, mas de uma pessoa sem sexo definido ouvindo o “grande grito da natureza”. A hipótese estava baseada na anotação em alemão que Munch fizera em 1895 atrás da versão litográfica dessa pintura: “Ich fühlte das grosse Geschrei durch die Natur”.

Rio de Janeiro, 6 de junho de 1884

Gazeta da Tarde, “Os clarões crepusculares”

            Um dos assuntos que mais têm intrigado a ciência nos últimos tempos consistiu no aparecimento de um clarão avermelhado, prolongando-se muito além do pôr do sol, e antecedendo a aurora, de um modo inteiramente novo e imprevisto. Em toda a parte do mundo tal fenômeno tem sido observado com estranheza, e a explicá-lo muitas hipóteses têm sido emitidas pelos homens da ciência. Entre nós, há muitos meses que o extraordinário fenômeno é visível. Dias, porém, tem havido que ele se apresenta com um brilho tal que faz lembrar os revérberos de um grande incêndio em uma floresta.

            A explosão do Krakatoa emitiu o mais alto som produzido até então, sendo ouvido a cinco mil quilômetros de seu epicentro. O Capitão Sampson, do navio britânico Norham Castle, que estava a cerca de 60 quilômetros dali, registrou: “Tão violentas são as explosões que os tímpanos de mais da metade de minha tripulação estouraram. Meus últimos pensamentos estão com minha querida esposa. Estou convencido que o Dia do Juízo Final chegou”.


créditos da foto: Eduardo Sterzi

Veronica Stigger é escritora, crítica de arte, curadora independente e professora universitária. Possui doutorado em Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisas de pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) e pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. É professora da Pós-Graduação em Histórias da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Entre seus livros publicados, estão Opisanie świata (2013), Sul (2016) e Sombrio ermo turvo (2019). Com Opisanie świata, seu primeiro romance, recebeu os prêmios Machado de Assis, São Paulo (autor estreante) e Açorianos (narrativa longa). Com Sul, angariou o Prêmio Jabuti. 


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